| A Historia de uma nova vida |
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Estranhos sons me tiraram da modorra do inicio do dia, Angus nem sequer mostrara seu claro véu no horizonte, e portanto ainda não era hora de despertar, mas o barulho era estridente e incomodo, e eu sabia que só poderia estar partindo de um indivíduo, se é que se poderia chamar aquela coisinha branca de indivíduo. Ele não parecia ter força física, mas tinha agilidade e leveza, e uma terrível voz aguda, que enlouqueceria qualquer Ogli, em um raio de quilômetros. Levantei a cabeça e olhei em direção ao que fora a base de estudos dos humanos, e minhas suspeitas foram tragicamente confirmadas, era aquele serzinho maluco. Ele entrava e saia da construção com os braços cheios de retalhos de tecidos nos mais diversos formatos e cores, amontoando-os em uma grande pilha, no topo de uma pequena elevação, enquanto praguejava e conversava sozinho em voz alta, por vezes sussurrava longos monólogos ao pé da pilha que construía, as vezes jogava algo no monte e se voltava para a sua moradia em passos pesados e apressados dizendo palavras que pareciam duras e grosseiras, enquanto brandia seu bracinho fino para o céu como que enfrentando alguma divindade. Quando reparou que eu o observava, fechou ainda mais o semblante, em um arremedo de fúria e atirou-me uma peça dura, que eu sabia se chamada por ele de sapato, que me atingiu o ombro esquerdo, sem me incomodar. "Acordou, seu Urso filho da puta. Bem feito, da próxima vez se enfia no mato ao invés de ficar me rodeando, especulando sobre minha vida. O que acha que eu sou, seu animal asqueroso ? Uma cobaia? Vai tomar no teu cú!". E voltou-se para a sua tarefa de ajuntar mais objetos a pilha. Eu estava começando a achar a cena divertida, aquela coisinha minúscula parecia tomada pela fúria de seus ancestrais. Cruzei os braços por sob o queixo e continuei a assistir o espetáculo, ate que depois de 2 horas ele dirigiu-se com uma caixa nas mãos ate o lugar onde eu estava e a depositou próxima de mim: "Esta curioso, então vá olhando esta porcaria enquanto ainda tem tempo, mas se apresse, que logo ela vai para o monte também. Quero acabar de vez com todas estas lembranças ! Se é pra mim ficar sozinho então eu ficarei sozinho !" Abriu a caixa e pude ver dentro dela vários objetos, e sobre todos um pequeno espelho, quadrado. Acredito que só abriu a caixa na minha frente. Ao se deparar com o espelho soltou uma sonora gargalhada, um gorjear quase insano, e arrebatou ele da caixa. Foi um destes momentos, que tantas vezes enfrentei ao seu lado, em que eu não sabia o que seus sentimentos representavam. Estranha criatura. Seu rosto transbordava um misto de ódio e de sarcasmo (esta palavra bem como sua aplicação não existiam em meu mundo, eu a aprendi com o humano e nunca consegui representá-la a mais nenhum dos meus. Nossa raça era simplesmente incapaz de ser sarcástica.) Seus olhos brilhavam em ódio, o que só tornava o sorriso nos lábios mais aterrador, era o único momento em que aquela criaturazinha me assustava, por isto me sentei um pouco alerta. Hermes Gargalhou alto e bateu com o espelho em uma pedra, partindo-o em mil pedaços, e balançando o caixilho vazio contra o firmamento que já mostrava a face de Angus acima do horizonte, gritou a todos os pulmões: "Vamos lá, palhaço, quero ver você encaixar mais sete anos nos próximos 50!", acrescentando uma outra gargalhada mais alta ainda e jogando os restos de alumínio aos meus pés. A raiva estampada em seu rosto, foi dirigida para o meu, e abrandou-se lentamente ate ser substituída por um sorriso cálido, que me devolveu o carinho que eu sentia por aquela criatura. "Você não esta entendendo nada, não é meu amigo Urso ? Não se preocupe, é que acordei atacado hoje, deve ser a má influencia deste céu cor de sangue, que o primeiro sol de vocês tinge no alvorecer. Estou fazendo uma faxina no meu passado, preciso apagá-la da minha mente ou vou enlouquecer. Vai vendo o conteúdo desta caixa enquanto decido se vou expurga-lá também. Vou terminar o que comecei!". Piscou um olho e dando as costas para mim, voltou a sua tarefa anterior. A caixa era de um tamanho médio para Hermes, mas minhas mãos quase não podiam entrar em seu interior, fui obrigado a virar o conteúdo sobre uma rocha achatada para poder examina-lo. Havia um arco adornado de pedras, que eu já havia reparado uma certa vez na cabeça da fêmea do meu amigo. Acredito que fosse uma especie de adorno. Algumas imagens gravadas em papel, ao qual os terraqueos davam o nome de fotografias, onde podia ser vista a fêmea em diversas fases de sua vida, deste filhotinha com alguns adultos e roupas estranhas, ate sua fase em Osteo, à poucos anos, ao lado de meu amigo. Alguns potes com líquidos e substancias pastosas aromáticas, e outros adornos mais simples, que em varias ocasiões, Saulo vira nas orelhas, braços e colo da companheira do humano. Por baixo de tudo havia um livro com uma encadernação azul clara, e desenhos em alto relevo na capa dura, um oceano, visto de uma praia, e ao fundo, contra um céu muito claro, a cauda de um animal marinho projetando-se para fora dágua, Saulo podia antever um movimento forte da criatura, chocando a cauda contra a água, por traz do animal, uma ilha nas cores marrom e verde, com uma montanha ao centro. O Ogli leu na capa : "MEMÓRIAS". Folheando o pequeno livro, reparou que havia sido escrito em uma caligrafia fina e leve, com as letras maiores arredondadas e bem trabalhadas. A civilização de Osteo não possuía a escrita, pois não necessitava dela, já que as lembranças eram geneticamente transmitidas aos descendentes, mas aprendera a ler e a contar o tempo como os terrestres contavam, com seu companheiro de solidão. Curioso, dirigiu-se à ultima pagina escrita. "Não haverá muito tempo agora, o doce deleite do fim da dor, que já me persegue a dias, parece ter-se sentado ao meu lado desde esta manha, e por mais estranho que possa parecer, a morte não tem um olhar terrível e nem um semblante que me cause medo. Pelo contrario, tem um maravilhoso sorriso, em um rosto meio de criança, que me da a impressão de um parente distante e querido. E me trata por minha filha. A única coisa que realmente me deixa infeliz, é saber que meu amor focara sozinho neste mundo tão diferente para nós..." E em uma letra muito tremida e hesitante : "Minha companheira invisível me chamou para partir, estou esperando Hermes para um ultimo beijo, nem sei se conseguirei fechar este livro, ele esta chegando" Saulo percebeu manchas no papel, redondas, e cheirando-as percebeu que eram o que seu amigo chamava de lagrimas, e do próprio Hermes. Sem uma linguagem falado, os Oglis, também não possuíam a escrita, seu glossário resumia-se a símbolos que representavam os indivíduos e os locais, mais para serem pintados em fachadas, placas, brasões e estandartes. Mas já se passavam mais de 3 anos de convivência continua, embora distante na maioria do tempo, entre os dois amigos, o que aliado a característica de Saulo de aprender as coisas quase que instantaneamente o havia feito conhecer a tradução das palavras humanas em seus símbolos de escrita. E ele, movido por uma curiosidade que não era inerente aos de sua espécie, resolveu guardar para si o diário. E quando Hermes voltou e para apanhar a caixa, o livro já não se encontrava em seu interior. O pequenino atirou a caixa chamas que nesta altura devoravam a pilha de roupas, e para minha surpresa, começou, a entoar uma musica suave, que me dava a impressão de sair não de sua boca mas de algum lugar bem profundo em seu ser, cantava e olhava para as coisas sendo consumidas rapidamente. De repente, acho que com o fim da musica, ficou alguns minutos em silencio, como que pensando em um lugar distante. Repentinamente olhou para o céu e soltou uma daquelas gargalhadas que lhe eram tão peculiares sobressaltando-me, (Eu nunca iria me acostumar com seus arroubos de mudança de atitude, nem que o acompanhasse por um milhão de anos) e mudando completamente começou uma segunda musica, agora muito alegre, e saltitando de um lado para o outro gritou pra mim : "Venha bailar grande Urso, hoje é o rompimento com minha velha vida, e todo rompimento é como se fosse um novo nascimento, tem que ser comemorado. Venha, seu animal estúpido !". Eu me levantei e gritei de volta enquanto caminhava em sua direção : "Vou te mostrar quem é o animal estúpido seu anão filho da pauta". "É filho da puta, sua besta.... Venha dançar... Venha participar do nascimento de seu amiguinho branco" E lá ficamos pelo resto da manhã, eu bamboleando desajeitadamente de um lado para o outro e ele saltando em torno de mim e cantando musicas cada vez mais alegres, reparei que em sua mão esquerda havia uma garrafa com um liquido dourado que foi se esvaziando gole a gole, até que, por volta da metade do dia, ele caiu no chão exausto, chorando em grandes soluços até que adormeceu, o peguei nos braços e o levei até o lugar que chamava de dormitório, durante o caminho, chamava pela companheira e xingava com ódio os outros humanos que haviam partido junto com a expedição a anos, principalmente o líder David. Deixei-o o resto do dia recolhido enquanto permanecia deitado em meu pequeno morro, sobre minha arvore preferida.... |